O Juiz e a sua História - Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto – TJAM

Dr. Nilo conseguiu se adaptar às peculiaridades regionais e criou um método de trabalho eficiente que envolve os servidores de seu gabinete.
Por Danusa Andrade.
Publicado em 28/08/2025 às 14:31. Atualizado há 3 dias.

LogoDr. Nilo da Rocha Marinho Neto é titular da 2ª Vara da comarca de Parintins

O quadro O Juiz e a sua História narra a trajetória, os desafios e as conquistas do Juiz de Direito Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto, titular da 2ª Vara da comarca de Parintins, do Tribunal de Justiça do Amazonas.

Natural de Teresina, capital do Piauí, Dr. Nilo foi criado em um ambiente de luta e trabalho. Sua avó materna teve 9 filhos e os criou vendendo verdura e frango na feira de Demerval Lobão, no interior do estado. Sua avó paterna foi costureira e o seu avô vendedor de livros (conhecido como o livreiro mais antigo do Piauí) até que seu negócio, que se iniciou em cima de uma bicicleta, se tornou uma das maiores livrarias do Piauí e do Maranhão - a Livraria e Papelaria Leonel Franca.

Criado com base em valores cristãos da igreja católica, Dr. Nilo estudou no Colégio das Irmãs e depois no Instituto Dom Barreto que representou um dos grandes pilares de sua educação. Em 2000 ele passou a congregar a Primeira Igreja Batista de Teresina e compartilha de sua formação com a sua esposa e os filhos.

Foi aprovado em primeiro lugar no vestibular para História na Universidade Federal do Piauí (1º lugar), e em Direito no Instituto Camillo Filho. A aprovação no concurso da magistratura do Amazonas ocorreu em 2017, dois anos depois da publicação do certame.

Dr. Nilo assumiu a judicatura na 2ª Vara da comarca de Coari, uma comarca com grandes desafios em razão do histórico de violência e de corrupção. Com o apoio de colegas e de desembargadores, o magistrado venceu as dificuldades e coleciona aprendizados e experiências desse período. Ele também judicou em Tapauá e Barreirinha até chegar à atual titularidade.

Mesmo com tantas peculiaridades regionais, Dr. Nilo conseguiu se adaptar, criou um método de trabalho eficiente que envolve os servidores de seu gabinete e como resultado entrega bom atendimento jurisdicional aliado a taxas expressivas de produtividade. Confira a entrevista!

ANAMAGES: A judicatura sempre foi a sua escolha profissional?

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: Por um breve tempo, na adolescência, imaginei-me um político e professor de História, que seguiria a tradição comercial da família. Mas ao descobrir que a magistratura me oferecia independência funcional para resolver conflitos, o sonho da judicatura brotou indelevelmente. Foi nesse período, em 2005, que conheci minha esposa (com quem me casei quando ainda éramos estagiários, em 2008). Ela me iniciou no mundo do concurso público, fixando o projeto que, de fato, começou logo após a minha nomeação para o cargo de Analista Judiciário do Tribunal de Justiça do Piauí, em 2010.

Em minhas devocionais, Deus confirmava essa vocação. Em 2011, por exemplo, quando morávamos em Batalha (interior do estado), minha esposa sonhou que estaríamos em uma grande mesa, mediando conflitos, com indígenas e depois disso eu fui aprovado no concurso para o TJAM e ela para Auditora do Tribunal de Contas da União.

Acredito que a magistratura é uma missão dada por Deus, para que eu possa fazer a diferença na vida das pessoas.

ANAMAGES: Comente quais foram os principais desafios do início da carreira.

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: Os desafios da carreira não possuem início, nem fim; e a maioria diz respeito à constância e ao equilíbrio.

Primeio, manter minha fé, meus princípios de vida e os cuidados da esposa e filhos, sem os quais minha carreira estaria fadada à falência.

Segundo, entender que só posso determinar dentro dos autos, conforme o que neles consta e dentro dos limites da lei. Fora dos autos, minha autoridade está restrita aos papéis que represento em cada espaço. Em outras palavras, preciso me lembrar constantemente que a autoridade que exerço nos autos decorre da lei para os fins nela especificados; e qualquer outra autoridade que eu exerço fora dos autos deve proceder de minha postura, integridade, amabilidade, responsabilidade.

Terceiro, manter a coerência e a calma, mesmo quando sou pressionado justamente ou injustamente, reconhecendo meus erros e limitações. Não preciso justificar meus erros, mas assumi-los e corrigi-los.

Quarto, manter o entendimento caso a caso, sendo fiel à consciência, sem olvidar dos formalismos necessários, e saber que, em alguns casos, não posso decidir como as emoções impulsionariam, mas como deve ser feito.

Quinto, a solitude da magistratura é agitada pelas exigências de metas, ofícios, sistemas; e por um perfil de magistrado que assume atribuições cada vez maiores e mais amplas, indo muito além da função da judicatura. Por vezes, nos impondo funções administrativas e legislativas. O inchaço do Estado chegou ao Poder Judiciário, e é feroz, principalmente nos últimos 5 anos.

Enquanto não fazemos uma auto-reflexão sobre isso, os magistrados, principalmente os do interior, são assolados com o peso cada vez mais esgotante. Esse desafio enfretamos todos os dias.

ANAMAGES: Quais são as peculiaridades da magistratura amazonense que o senhor precisou incorporar?

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: A primeira grande peculiaridade são as distâncias e os meios para percorrê-las. Basicamente, as estradas do Amazonas são seus rios caudalosos e o ar verde.

Confesso que minha primeira ida a Coari, em um modelo Caravan, foi muito desafiador, pois era a primeira vez que o utilizava. As sensações foram bem diferentes. De quebra, algumas nuvens para pequenas turbulências.

Nada comparada a uma tempestade que enfrentei, quando, com minha esposa grávida, perto de ter o primeiro filho, tivemos que retornar à capital para exames.

Nesse contexto, tudo é muito mais amazônico. As soluções criadas em Brasília (Congresso, Conselho Nacional de Justiça, etc) são pensadas para ambientes muito diferentes. E somos cobrados como se trabalhássemos nesses locais, mas quem mergulha na Amazônia rapidamente se adapta e encontra uma rotina que mitigue os efeitos colaterais das distâncias.

ANAMAGES: Qual a sua metodologia de trabalho para alcançar alta produtividade aliada ao bom atendimento jurisdicional?

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: Os primeiros seis meses de magistratura foram desafiadores. Ainda hoje há espaço para inseguranças. Afinal, cada processo é um desafio. Mas sempre busquei dialogar com todos meus colegas, indagando como eles faziam para gerir as unidades judiciais. Hoje, e em cada nova vara que assumo, eu invisto muito tempo capacitando os servidores, ouvindo e trocando ideias. Faço junto com eles os planos de gestão.

Assim, criamos calendários, rotinas, manuais próprios, em que registramos erros, acertos e as medidas que tomamos para aprimoramento. Muito além disso, prezo pela saúde mental dos servidores e pela boa harmonia entre eles. Prefiro sofrer uma punição funcional, do que ver os servidores doentes ou com problemas interpessoais.

Sou pressionado por números, mas atrás dos números, temos partes e temos servidores, que precisam de atenção. Minha meta é que aqueles que trabalham comigo não sejam os mesmos. E que quando encerram a etapa comigo, saiam bem melhores do que quando iniciaram. Com essa visão, construímos um ambiente produtivo, leal. As bençãos e as demais coisas são acrescentadas.

ANAMAGES: Qual a importância do apoio familiar para a sua trajetória profissional?

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: Sem o apoio dos meus pais durante a minha chegada até aqui e sem o apoio de minha esposa eu não conseguiria controlar muitas questões emocionais como ansiedade, nervosismo, preocupações, medos. Sem meus filhos, eu não teria um conforto e alegria, ao chegar em casa. Minha esposa e meus filhos são refúgio em meio a tantos desafios.

ANAMAGES: Mesmo com algumas barreiras, quais são os pontos gratificantes da carreira?

Dr. Nilo da Rocha Marinho Neto: A magistratura pode não resolver todos os problemas das pessoas. Às vezes, não resolvemos mesmo. Mas o fato de ouvir as pessoas, de esclarecer a situação por qual ela passa, trazendo-lhe nova perspectiva, já é um ponto gratificante. E isso me incentiva a continuar.