O inimaginável
Falamos muito sobre direitos, mas esquecemos os deveres mínimos da humanidade: respeito, pudor e compaixão.
*Juiz Carlos Hamilton Bezerra Lima. Tempo em que a dor alheia já não constrange.
Tempo em que a morte perdeu o silêncio respeitoso que antes a cercava.
Tempo em que uma lápide pode ser transformada em ironia, e a vida humana reduzida a caricatura de ocasião.
Lembro-me então das palavras do velho chefe indígena, quando lhe propuseram comprar suas terras. Ele não compreendia como os homens brancos acreditavam possuir o céu, os rios, os ventos ou os caminhos dos ancestrais. Para ele, tudo tinha espírito. Tudo carregava memória. Tudo merecia reverência.
E talvez seja exatamente isso que estamos perdendo: a capacidade de reverenciar. O progresso nos ensinou a medir cifras, mas desaprendemos a medir ausências. Aprendemos a produzir notícias em segundos, mas desaprendemos a velar os mortos em silêncio.
Falamos muito sobre direitos, mas esquecemos os deveres mínimos da humanidade: respeito, pudor e compaixão.
O velho chefe dizia que a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra. Hoje parece necessário recordar outra verdade igualmente simples: a dignidade humana não pertence às ideologias, às disputas ou às conveniências do momento.
Ela pertence à própria condição de existir.
Quando uma sociedade começa a rir ao lado de uma sepultura, algo nela adoeceu profundamente.
Não se trata de censura.
Não se trata de impedir crítica, humor ou liberdade.
Trata-se de reconhecer limites morais invisíveis que sustentam a própria civilização. Porque uma comunidade humana não começa a ruir quando perde riqueza ou poder.
Ela começa a ruir quando perde a capacidade de sentir respeito diante da dor.
E talvez o velho chefe, olhando nosso tempo de tão longe, dissesse com tristeza:
“Os homens modernos aprenderam a dominar o mundo, mas esqueceram como honrar a vida.” *É Presidente da ANAMAGES.






